sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

- Cracolândia... "O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui..."


"... Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos

Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos 
E outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se olhos do mundo inteiro possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
[...]
E todos sabem como se tratam
 os pretos..."



  Ação na Cracolândia, Janeiro de 2012... São Paulo - Brasil...  


- "Ser aluno negro da universidade mais renomada do país e portanto pertencer a uma elite cultural não garante qualquer blindagem..."


Lugar de Negro, 30 anos depois
Nelson Inocencio

Quando Lélia Gonzáles e Carlos Hasenbalg publicaram um pequeno livro intitulado Lugar de Negro, em 1982, abordando o racismo e os problemas dele decorrentes, denunciaram a crença, corriqueira no Brasil, de que negros e negras deveriam peremptoriamente ocupar os espaços e as funções mais desvalorizados possíveis. No inicio dos anos 1980, os autores tentavam diagnosticar os efeitos perversos da violência racial, alimentada por um imaginário contaminado pelo legado da escravidão.
Trinta anos depois, a atualidade desse texto é constatada por cenas estarrecedoras como as que foram postadas na internet recentemente, mostrando a ação da Polícia Militar no campus Butantã da Universidade de São Paulo. Uma aparente negociação entre membros da tropa e universitários que ocupavam um dos prédios da USP, onde decidiram instalar o DCE, terminou com um rompante do sargento André Luis Ferreira, tamanho foi o seu mal-estar ante a presença naquele espaço de Nicolas Menezes Barreto, graduando do curso de Ciências da Natureza daquela instituição.
O policial parece ter detectado um corpo estranho no ambiente e logo tratou de tomar suas providências: colocar em cheque a legitimidade do rapaz e agredi-lo fisicamente diante dos colegas. Um espetáculo humilhante. Nicolas reconhece que era o único universitário de tez escura a participar daquilo que seria supostamente um diálogo. Não levou muito tempo para perceber que sua presença no recinto era incômoda.   

Esse episódio merece nossa atenção. Talvez Nicolas esteja equivocado ao alegar que aquele ato se constituía em uma prática de racismo implícito por parte do policial.
O ocorrido foi uma manifestação explicita de intolerância que reforça as noções de que espaços de prestígio como a USP não são para negros. Incidimos em erro quando tendemos a atribuir a ações desmesuradas como esta um caráter particular, individual. O imaginário deque falavam Gonzales e Hasenbalg está aí, com sua dimensão ideológica, insuflando posturas reacionárias contra quaisquer políticas públicas que vislumbrem uma participação maior de tantos Nicolas nos campi das universidades brasileiras.
O afastamento do sargento, bem como de seu colega, o soldado Rafael Ribeiro Fazolin, por desvio de conduta, obviamente cumpre uma função estratégica diante da evidência do registro das imagens capturadas. Todavia, reduzir o problema a um ou dois membros da corporação é uma simplificação absurda. A questão está relacionada a um ethos que norteia o aparato de segurança. Pessoas negras tem sido historicamente o alvo preferencial das abordagens policiais, independente da condição social.
Para os alegres equivocados, como diria o saudoso Abdias do Nascimento, que persistem em dizer que tudo é questão de classe, fica mais um desafio. Ser aluno negro da universidade mais renomada do país e portanto pertencer a uma elite cultural não garante qualquer blindagem, não impede que o olho clínico do racismo identifique aqui e ali as pessoas que supostamente deveriam exercer outras atividades que não as intelectuais.
Aos docentes e pesquisadores que ainda investem no diálogo entre universidade e sociedade o referido acontecimento é um convite à reflexão sobre relações raciais no Brasil. Algo que grande parte da elite nacional terminantemente recusa-se a fazer.

FONTE: 

- É preto? É suspeito. Ou sobre a rara presença negra nos bancos escolares da USP

preto e suspeito



 
Publicado em Terça, 10 Janeiro 2012 16:39 - 
http://www.geledes.org.br


Houve no twitter quem perguntasse se o rapaz agredido na Universidade de São Paulo era realmente estudante da USP. Por que a dúvida? Se ele estava no centro de estudantes e afirmava ser aluno da universidade?


As universidades brasileiras de um modo geral têm poucos Ícaros, mas na USP a presença de negros nos bancos escolares é tão rara que o policial viu-se no direito de encher de porrada o estudante e lhe apontar uma arma. O policial agressor diz "Eu sou policial, eu sou policial". Para ele, sua farda lhe dá licença para bater. Quando outros alunos solicitam a identificação do policial agressor, ele diz: "Não estou fazendo nada de errado". Espancar um rapaz negro é ação legítima para a PM de São Paulo que age como capitão do mato em plena luz do dia dentro de uma universidade. Podem imaginar o que essa mesma PM faz à noite nas periferias da cidade?
No Brasil do "não somos racistas de Kamel, Magnolis e Demóstenes ser preto é ser suspeito e a universidade não é o seu lugar. Como diz Sueli Carneiro: "Para o racista a negritude chega sempre na frente dos signos de prestígio social". Assim, para o policial agressor um centro de estudantes não é lugar de preto. No máximo tolera-se a presença negra nesses espaços de prestígio social se ela estiver com vassoura ou latão de lixo na mão.
Pois bem, Nicolas Menezes Barreto é estudante de Ciências da Natureza na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), USP Leste. É ele o aluno agredido no vídeo aqui. Abaixo, depois da agressão, Nicolas mostra sua carteira de estudante da USP. Isso muda algo no fato de um policial abusar de sua autoridade contra um cidadão?

Fonte: Maria Frô

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

- O Racismo Cordial da Rede Globo no BBB-12

O PEDRO BIAL tinha de perguntar ao único negro do programa Big Brother Brasil 12 se o critério racial, ou o que comumente se chama de cotas, seria um bom critério de eleição para um dos participantes do programa. Ele tinha de fazer isso. E aquele garoto, o Daniel, tinha de responder que “não, porque eu acho que não tem que ter cota pra nada, a gente é igual cara, embaixo da pele é sangue, e o sangue é vermelho”, querendo dizer que todos somos iguais; o que ninguém disse ou tinha de dizer naquele programa, e em rede nacional, é que nós negros sempre soubemos disso, e que apenas a ‘elite branca racista’ deste país é que discorda da assertiva daquele garoto negro, ou “negão” como o apresentador preferiu denomina-lo.

É como se a Rede Globo, principal representante disto que chamamos de ‘elite branca racista’ deste país, estivesse cumprindo o seu papel. Digo isso porque estou certo que comparto da opinião de muitos dos militantes negros – que ao serem acordados às portas desta madrugada do dia 11 de janeiro, pois foi assim que soube de mais esta investida contra as ações afirmativas, com a avaliação inocente de que esta rede de televisão não é legítima para fazer este debate –, que esse tema, o da questão racial brasileira, não é nosso, que esse tema pertence a todos os brasileiros e tem lados. Que o nosso papel é o de defender a nossa posição e a ‘elite branca racista’ o dela, com isso, repito: a Rede Globo cumpre o seu papel.

Sabemos ainda que as armas não são paritárias, e que não devemos esperar que a ‘elite branca racista’ nos seja leal e honrosa. Que esta mesma elite só se afastará deste debate quando destruí-lo, por tê-lo deslegitimado; ou quando puder tirar algum proveito dele. Que a ‘tolerância’ é uma das grandes ferramentas que forjamos no século passado para impor os ‘direitos das minorias’, pois não podemos obrigar a ‘elite branca racista’ a nos amar, mas compeli-la a nos admitir no mesmo espaço público e de poder sim, isso nós podemos.

Sabemos também que no momento histórico em que o IBGE afirma sermos nós negros mais de 50% da população, um apresentador perguntar ao único jovem negro de um programa, em meio a 16 participantes, se o critério racial é um critério legítimo de eleição, por mais esdrúxula que possa parecer tal pergunta, considerando tamanha ousadia frente à evidência, que este gesto é uma posição de ataque, é um desafio, e que devemos sempre estar ‘a postos’ para responder à altura; muito embora o constrangimento esculpido no rosto do garoto Daniel não nos permita sequer condená-lo, pois apenas mais uma vítima.

E que não devemos descansar, assim como não fizeram João de Deus, Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luís Gonzaga das Virgens, Luiz Gama, William Edward Burghardt Du Bois, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, Malcom X, Martin Luther King, Steve Biko, Patrice Lumumba, Cheikh Anta-Diop, Elbert "Big Man" Howard, Huey P. Newton, Sherman Forte, Bobby Seale, Reggie Forte e Little Bobby Hutton, Angela Davis e muitos outros e outras que começaram “de longe” a nossa batalha e que nós devemos continuar dando seguimento.

Um Axé a todos e todas, vamos nos aliar a campanha iniciada pela nossa Magnífica Ivete Sacramento e não assistir a este programa, apenas isso.



CLEIFSON DIAS é Bacharel em Direito pela Universidade Católica do Salvador.


Veja o vídeo:

- Cotistas se dão bem na sua maior prova: a carreira

cotas para negros avaliacao
Foto: Alexandre Brum / Agência O Dia
Nove em cada 10 formandos beneficiados por reserva de vagas estão no mercado de trabalho. Seis, na sua área de formação
POR MARIA LUISA BARROS
Oito anos após o início do programa de reserva de vagas no ensino superior para negros e estudantes da rede pública, ex-cotistas estão se saindo muito bem na prova mais importante: a carreira profissional. Sete em cada dez estudantes que ingressaram na universidade pelo sistema de cotas já conquistaram uma vaga no mercado de trabalho, sendo seis deles na sua área de formação. Dois se preparam para concursos e apenas um não conseguiu emprego após a formatura.
Os dados inéditos fazem parte da primeira pesquisa feita, no ano passado, pela Universidade do Estado do Rio (Uerj), com 20% dos 4.280 ex-cotistas. O levantamento coordenado pela Sub-reitoria de Graduação revelou que 90% dos cotistas pioneiros não pensam em parar os estudos. Entre os egressos, 67% já concluíram cursos de pós-graduação e 39% frequentam mestrado, como Bruna Melo dos Santos, 30 anos.
Formada em História, ela está na segunda faculdade, de Arquivologia, que concilia com o curso de mestrado. "Eu só precisava de uma chance de provar que era capaz. Daqui a dois anos pretendo fazer doutorado na Inglaterra", planeja ela, que agradece aos patrões da mãe, doméstica, pela ajuda nos anos difíceis da faculdade. "Eles me davam vales-alimentação, transporte e até curso de inglês. Foram anjos na minha vida", conta Bruna, que viu o padrão de vida mudar após os estudos. Ela comprou um apartamento junto com o marido, também ex-cotista, e se mudou de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, para Irajá, na Zona Norte do Rio, para ficar mais perto do trabalho.
As amigas Ana Paula Ferreira de Melo, 27, e Camila Rodrigues de Souza, 26, trilharam o mesmo caminho, fazendo as duas faculdades. Ana Paula é professora das redes municipal e estadual do Rio e Camila trabalha como arquivista na iniciativa privada.
"Vejo nos meus alunos que a maioria não sonha. Tento servir de exemplo", diz Ana, que também comprou apartamento. "Estudávamos muito porque a cobrança era maior em cima da gente. Não queríamos que ninguém dissesse que jogamos fora a oportunidade", conta Camila.
Beneficiados por cota se formam mais que os outros
Formada na primeira turma de cotistas da Uerj, em março de 2007, a dentista Priscila Seraphim, 26 anos, é a prova de que, às vezes, basta uma oportunidade. Ela se divide em três clínicas odontológicas e o curso de especialização. Durante a faculdade, Priscila contou com a ajuda da aposentadoria da avó para custear R$ 2 mil por semestre com o material da aula prática, livros, roupa branca, alimentação e transporte: "Havia livros que custavam R$ 300 e não tinha para todos na biblioteca".
Como ocorreu com Priscila, a Sub-reitoria de Graduação da Uerj identificou que a maior dificuldade dos cotistas era permanecer até a formatura. Por isso ampliou a assistência estudantil. Além da bolsa-auxílio de R$ 300 e de oficinas de reforço escolar, a universidade passou a fornecer livros, calculadoras e kits básicos para alunos de Medicina e Odontologia, que incluem instrumentos como estetoscópio e material para aulas em laboratório.
Como tartarugas da fábula, cotistas começam em desvantagem, mas podem ser os primeiros na linha de chegada, incentivados pela determinação que os leva a seguir sempre em frente. Eles se formam mais (25,9%) do que os não-cotistas (20,5%). "Agarram com unhas e dentes a oportunidade e fazem melhor uso do dinheiro público, já que não abandonam o curso", reconhece a sub-reitora Lená Menezes.

 Mais sobre o assunto: 

As cotas para negros: por que mudei de opinião

Comparato: Justiça para os negros - VÌDEO


Restaurante Nonno Paolo - O racismo não cordial do brasileiro


minino comendo foto ilustrativa

Criança negra é retirada de restaurante ao ser confundida como pedinte

Por Mario Sergio
Neste final de ano pude testemunhar e viver a vergonha dessa praga do rascismo aqui em nossa multicultural São Paulo. E com pessoas próximas e queridas. Não dá para ficar calado e deixar apenas o inquérito policial que abrimos tomar conta dos desdobramentos desse episódio lamentável e sórdido.
Na sexta feira, 30, nossos primos, espanhóis, e seu pequeno filho de 6 anos foram a um restaurante, no bairro Paraíso (ironia?) para almoçar. O garoto quis esperar na mesa, sentado, enquanto os pais faziam os pratos no buffet, a alguns metros de distância. A mãe, entre uma colherada e outra, olhava para o pequeno que esperava na mesa. De repente, ao olhar de novo, o menino não mais estava lá. Tinha sumido.
Preocupada, deixou tudo e passou a procurá-lo ao redor. Ao perguntar aos outros frequentadores, soube que o menino havia sido retirado do restaurante por um funcionário de lá. Desesperada, foi para a rua e encontrou-o encolhido e chorando num canto. Perguntado (em catalão, sua língua) disse que "o senhor pegou-me pelo braço e me jogou aqui fora".
O casal e a criança voltaram para o apartamento de minha sogra e contaram o ocorrido. Minha sogra que é freguesa do restaurante, revoltada, voltou com eles para lá. Depois de tergiversações, tentativas de uma funcinária em pôr panos quentes, enfim o tal sujeito (gerente??) identificou-se e com a arrogância típica de ignorantes, disse que teria sido ele mesmo a cometer o descalabro. Mas era um engano, mas plenamente justificável porque crianças pedintes da feira costumavam pedir coisas lá e incomodar. E que ele era bom e até os alimentava de vez em quando. Nem sequer pediu desculpas terminando por dizer que se eles quisessem se queixar que fossem à delegacia.
Minha sogra ligou-me e, de fato, fomos à delegacia do bairro e fizemos boletim de ocorrência. O atendimento da delegada de plantão foi digno e correto. Lavrou o BO e abriu inquérito. Terminou pedindo desculpas e que meus primos não levem uma impressão ruim do Brasil.
Em tempo: o filho de 6 anos é negro. Em um e-mail (ainda não respondido pelo restaurante Nonno Paolo) pergunto qual teria sido a atitude se o menino fosse um loirinho de olhos azuis.

Leia Também:

Sueli Carneiro: Nonno Paolo – um caso emblemático


7ª Edição do Nosso Jornal

Em 2002, quando cantavam as estrofes do samba “Moleque Atrevido” de Jorge Aragão a capela no anfiteatro 09 para uma plateia de estudantes ne...